Estágio nos Alpes Franceses

     

 

O Ludi Gim Aventura Clube promoveu entre 12 e 20 de Setembro de 2003 um estágio de alpinismo no massiço do Mont Blanc, no qual participaram cinco elementos do Clube.

Boas condições climatéricas, um ambiente de montanha espectacular e o enquadramento técnico da responsabilidade do alpinista português João Garcia, foram factores que contribuíram para o êxito desta iniciativa.

De destacar as ascensões feitas durante o estágio à Aiguille du Tour 3529 metros e ao Mont Blanc 4807 metros, para além de muitas outras experiências proporcionadas pelas múltiplas possibilidades desta cordilheira repleta de cumes e glaciares.

     
Diário do Estágio
     

Massiço do Mont Blanc visto de Chamonix.

 

12 de Setembro de 2003

Chegada a Chamonix, depois de uma viagem durante todo o dia desde o Funchal, com passagem por Lisboa e Geneve. A noite aproximava-se e só houve tempo de procurar o parque de Campismo e instalar-se. Pelo que conseguimos observar à nossa volta os dias a seguir prometiam!


 

13 de Setembro de 2003

O primeiro dia em Chamonix foi para verificar todo o material necessário e adquirir as pequenas faltas, tarefa fácil pela variedade e quantidade de lojas de montanha que se podem encontrar. Oportunidade também para tomar contacto com esta estância de turismo de montanha, onde quase todo o comércio e infra-estruturas estão vocacionadas para as necessidades dos Montanheiros. A oferta é muita, desde os trekkings, hydrospeed, parapente, canyoning, escalada em rocha, às ascensões das montanhas mais altas, tudo é vendido a qualquer praticante “bem parecido”. Outra particularidade é a possibilidade de alugar todo o equipamento necessário a qualquer actividade ou comprar numa famosa loja a preços muitos convidativos material equivalente às grandes marcas.

 

14 de Setembro de 2003

O primeiro dia de actividade do estágio decorreu numa escola de escalada muito perto do centro de Chamonix, um enorme paredão rochoso com imensas vias equipadas, um relvado na base, vários lagos a circundar e o Mont Blanc a observar, um local de sonho! Este dia foi preenchido com uma aula de escalada em rocha, melhor dizendo, treinar subidas e descidas em rocha com e sem botas rígidas, procurava-se a melhor adaptação ao calçado para as progressões em terrenos mistos nas montanhas a maior altitude.
A tarde foi para a preparação do dia seguinte, adquirir a comida, barras energéticas, algumas sandes e sopas instantâneas, arrumar a mochila e só levar o imprescindível, íamos para a montanha.


 

Refúgio Albert I e Glaciar do Tour .

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15 de Setembro de 2003

Despertar cedo é um bom principio para andar na montanha, o sol ainda está fraco e o desgaste é menor, e assim partimos para o Tour uma pequena povoação no fim do vale de Chamonix, ponto de partida para as nossas experiências imediatas. Após uma caminhada de 3 horas por um caminho sinuoso subimos cerca de 1400 metros de desnível para chegarmos ao refúgio Albert I, à nossa frente a pouco mais de cem metros uma imensidão de gelo, o Glaciar du Tour. Após um visita as acomodações para a noite, fomos praticar a progressão em glaciar, por sinal repleto de crevasses, utilizamos os “crampons” (equipamento com elementos pontiagudos em metal, que se coloca na sola das botas) e o “piolet” (picareta utilizada para a progressão e segurança em gelo e neve) para ultrapassar desníveis acentuados em gelo e treinamos também o resgate em crevasses utilizando várias técnicas. Outro aspecto muito importante foi a avaliação da resistência dos elementos do meio: gelo e neve.
Já cansados voltamos ao refúgio para beber os líquidos necessários a uma boa hidratação e jantamos umas sopas instantâneas, um rico menu para quem está longe de casa. Não era preciso dizer para deitar cedo, o corpo pedia e o dia seguinte tinha alvorada marcada para as 4 da madrugada.

 

Prática de resgate em crevasses.

 

 

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Ascenção à Aiguille du Tour (travessia em neve e escalada em terreno misto).

 

16 de Setembro de 2003

O despertador e outros grupos no refúgio com o mesmo objectivo foram suficientes para interromper o descanso, o destino era a Aiguille du Tour.
Partimos eram 5 horas da madrugada e ainda noite caminhamos pelo glaciar contornando “crevasses” ou transpondo-as pelas pontes de neve e gelo que as unem. Do nosso instrutor vinham todas as recomendações, máximo de atenção, nada de máquinas fotográficas na mão porque todos os reflexos são necessários se um colega precipitar-se numa “crevasse”.

Após três horas de glaciar chegamos ao Col du Tour e atravessamos a fronteira, a abordagem ao topo é feita pelo lado Suíço. Mais um percurso em glaciar com muita neve e deparamos com um muro de gelo vidrado com cerca dez metros de altura, uma situação nova que foi ultrapassada pelas práticas do dia anterior. Ainda faltava uma travessia numa pendente de 45º e uma escalada em misto até ao topo, ... até que chegamos aos 3529 metros da Aiguille du Tour, oportunidade para comer um pouco e fotografar._


No regresso novo treino, a queda de um elemento numa pendente de forte inclinação, uma surpresa do instrutor bem resolvida pelo grupo, depois foi mais umas quedas simuladas e subidas e descidas numa pendente de 55º, que pôs o coração à prova! Um dia cheio de coisas novas que terminou em Chamonix na Maison de la Montagne, era necessário saber a meteorologia para os dias seguintes e definir objectivos. As previsões eram as melhores, céu limpo com ausência de vento em altitude, decidiram o destino, Mont Blanc!
De volta à base no centro de Chamonix, era tempo de recuperar energias e arrumar novamente a mochila para dois ou três dias de montanha. Um bom jantar, muita massa, sumos e chá antecederam uma noite de descanso.

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Os cinco elementos do Ludi Gim no topo da Aiguille du Tour (3529m). Ao fundo, à direita, podemos observar o Mont Blanc.

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Galciar visto da Aiguille du Tour.

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Refúgio do Tête Rousse (3167m).

 

17 de Setembro de 2003-09-23

Com o despertador encravado nas 7h30 e após um pequeno almoço reforçado, saímos sem pressas em direcção a Les Houches, ponto de partida para muitos alpinistas e caminheiros, nós tomamos o teleférico até Bellevue (1785 metros) e seguimos a pé pelo caminho do Tranway du Mont Blanc até Nid d`Aigle (2372 metros) ai descansamos um pouco para preparamos a subida até aos 3167 metros do Refúgio do Tête Rousse. Chegados a este oásis na montanha ordem para descansar e observar parte dos desafios para o dia seguinte, entre eles o “Corredor da Morte”, uma passagem muito famosa quase proibitiva em horas de muito calor, mas nos Alpes muitos dos riscos são responsabilidade de quem os assume e não faltavam alpinistas a tentar a sua sorte por entre uma espera e umas pedras encosta abaixo, um passo apressado e estava superada a dita passagem, iam para o refúgio da Aiguille du Goûter (3817 metros), o ataque ao cume fica mais suave para o dia seguinte. Outra curiosidade destes destinos é o imprescindível uso do helicóptero para o transporte de material e mantimentos para os refúgios, bem como para o socorro na montanha e era vê-los a chegar, partir e sobrevoar.
O dia passou rapidamente e fomos descansar cedo, o despertar estava marcado para a uma da madrugada e sair às duas.

Helicóptero em operação de recolha de material do refúgio do Tête Rousse.


 

Ascenção em direcção ao Mont Blanc.

 

18 de Setembro de 2003

Quase nem dormimos e já estávamos prontos para começar esta aventura, foi só tomar o pequeno-almoço, colocar os “crampons”, encordar, piolet na mão e com o frontal a iluminar, iniciamos a subida da Arête Payot. A primeira expectativa era a passagem perigosa, mas como a temperatura estava baixa, teoricamente as pedras estavam mais consolidadas e ultrapassamos ligeiros o “sorteio”.


Após duas horas e quinze minutos de escalada tecnicamente acessível, em terreno misto de rocha, gelo e neve chegamos ao refúgio da Aiguille du Goûter. Um pequeno descanso para beber e comer um pouco e arrancamos a uma passada lenta, tínhamos pela frente uma imensidão de neve e gelo, 1000 metros de desnível a vencer por plataformas, colos, bossas e arestas por vezes bastante expostas. Ao longe víamos os frontais dos madrugadores do refúgio du Goûter e advínhavamos as dificuldades.


A temperatura estava baixa, 12º negativos foi a que vimos mais baixa, o sol ainda não saía do horizonte quando ultrapassamos o Dôme du Goûter (4304 metros). Continuamos, era tempo de gerir o esforço e a altitude já se fazia sentir, o nosso instrutor questionava o nosso estado físico e psicológico, reforçando a necessidade de respirar bem e forçar uma passada lenta.


Fomos superando objectivos imediatos, refúgio Vallot (4362 metros), desabitado mas muito útil em caso de tempestade, depois a aresta com a bossa grande e bossa pequena e finalmente a aresta final muito estreita e inclinada, de um lado França, do outro Itália. As recomendações eram cruciais, muita concentração, ceder passagem a outros alpinistas em sentido contrário e proibido tropeçar.

Parecia que não acabava, mas chegamos todos ao topo da miragem que repetidamente tínhamos olhado desde Chamonix 3800 metros abaixo, durante vários dias. Eram nove e pouco, estávamos no cume do Mont Blanc, a 4807 metros de altitude com Sol radiante, acabávamos de ganhar o bónus do estágio. Comer, beber, observar, fotografar e estava esgotado o tempo de paragem, ainda não tínhamos chegado ao fim, era preciso voltar!_

Muito mais rápido a descer, o percurso inverso tinha duas dúvidas, chegaríamos a tempo de passar em segurança o tal corredor, antes de o Sol derreter a base de apoio a muitas pedras instáveis? E outra, conseguiríamos descer 2435 metros de desnível em seis horas e meia a tempo de chegar a Nid d` Aigle para apanhar o comboio de cremalheira até Bellevue? Tentamos, e com sacrifício, bolhas nos pés, pouca água e espirito de grupo, lá conseguimos chegar todos 5 minutos antes da partida, depois apanhamos o teleférico de regresso a Les Houches e completamos com grande satisfação, após 14 horas seguidas de actividade o exame deste estágio!

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Ascenção em direcção ao Mont Blanc.

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Foto1: Subida da bossa grande após o refúgio Vallot (4362m). Foto2: Aresta final antes do cume do Mont Blanc.

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Os cinco elementos do Ludi Gim no cume do Mont Blanc (4807m)!!!

 

 


 

Mer de Glace

 

 

 

19 de Setembro de 2003

O último dia em Chamonix. Aproveitamos para fazer mais umas explorações ligeiras, a meio da manhã tomamos o comboio de Montenvers, onde é possível observar e caminhar em direcção ao Mer de Glace, o maior glaciar dos Alpes com 14 Km de extensão e cerca 200 metros de largura. Em redor do vale imponentes montanhas, autênticos paraísos da escalada em rocha a grande altitude e outros desafios para alpinistas, destacam-se Les Drus (3754 m), Les Grandes Jorasses (4205 m) e Les Grands Charmoz (3842). Depois ainda fomos até ao glaciar para sentir de perto a grandeza deste rio de gelo que se desloca todos os anos cerca de dois metros.
De regresso a Chamonix, por entre espectaculares panorâmicas já se pensava em outros projectos, outros locais, voltar a este paraíso, conclusão é certo que o “gostinho” ficou e o Ludi Gim Aventura Clube em breve organizará outras aventuras!!!


Esta iniciativa só foi possível, graças ao empenho e disponibilidade dos participantes, ao apoio do IDRAM e das lojas THE BEST/Salomon, a quem o Ludi Gim Aventura Clube muito agradece.