Reportagem

IV Raid Madeira Lés a Lés

29 Sexta-feira, 29 de Agosto de 2003

    
   O ponto de encontro, junto ao Palácio da Justiça no Funchal, estava agendado para as 07h00, obrigando os participantes a madrugar (uns mais que outros!). Devido a alguns inesperados atrasos, partimos da capital por volta das 08h00 rumo ao Farol da Ponta de Pargo (ou não fosse este o local mais a oeste da ilha) onde chegamos às 09h30.
       Aqui começava o desafio, e esta terra recebeu-nos amenamente, avistando-se o bom tempo desde o fundo da falésia, espelhado no mar calmo, até ao azul do céu sarapintado aqui e ali com poucas e amistosas nuvens.
       Após as fotos da praxe, chegou a hora (10h00) destes bravos reunirem forças e se meterem a caminho pois o dia adivinhava-se longo e exigente. Reinava a boa disposição e por entre os caminhos desta simpática vila apreciavam-se os campos de cultivo, os bovinos em pastoreio e as gentes, que quando interpeladas retorquiam com prontidão e amabilidade.
       Aos poucos fomos deixando para trás o casario, o verde passou a dominar a paisagem circundante e a terra substituiu o alcatrão. Começou o grupo a sentir-se no seu meio natural e a subida até à Fonte do Bispo passou “a correr”, por entre conversas e curtas paragens para restabelecimento do corpo e da alma. Foi com agrado que pelas 12h45 chegamos à clareira relvada deste vale verdejante, onde sem mais demoras celebramos a superação da penosa subida até este ponto, fortalecendo o corpo e descansando as pernas.
       Seguia-se a travessia até ao rabaçal, pelo inevitável alcatrão, que pese embora não seja o terreno preferencial para este tipo de actividade, era a forma mais viável de ligar estes dois pontos do percurso. Foi com algum desagrado que se observavam algumas manchas cinzentas resultantes dos últimos incêndios deste verão, mas o verde ainda dominava o panorama geral.
       Acompanhados por um elemento da organização que entretanto aproveitou para “esticar” as pernas, eis nos chegados ao Rabaçal (15h20), zona inicial do único grande planalto existente na Madeira: o Paul da Serra.  A nossa opção foi seguir pela levada talhada nas encostas que dão forma ás Lombadas da Calheta e Ponta do Sol, canalizando água até à câmara de carga da central hidroeléctrica da Calheta. Nesta fase, já se faziam sentir algumas queixas físicas, mas nada de relevante, ou não fosse esta a etapa inicial dum desafio de três dias.
       Principiamos a levada das Rabaças, assolados pelo panorama desolador que nos acompanhava. Todo o esplendor da vegetação que outrora cobria as pendentes acentuadas destes vales estava coberto de cinza e troncos carbonizados, vestígios indicativos do encanto que num passado recente inebriava a vista de quem por ali passava. Mas ainda resta grande parte do núcleo de laurisilva deste local, pelo que não deixa de ser um passeio recomendável e apetecível.
       Mantendo uma marcha ritmada, avistamos as majestosas quedas de água que vindas do planalto do Paul confluem em rebuliço, para dar forma ao belo vale da ribeira da Ponta do Sol. Neste ponto, houve direito a repasto e descanso merecido, visto as pernas já acumularem 07h15 de caminho.
       Pela frente tínhamos dois “furados”, um deles com 1900 metros de comprimento que nos obrigava a andar 30 minutos nas entranhas da rocha e permitia aos amantes da natureza presentes deliciarem-se com algumas espécies de aracnídeos frequentes nestes habitats. Mas nem todos temos a mesma sensibilidade ambiental e o que para alguns era motivo de atenta análise para outros seria um alvo a abater.
       Enfim, ultrapassadas as “trevas” restava a lama no calçado e as queixas habituais do desconforto causado pela curvatura da coluna, directamente proporcionais ao comprimento individual.
       Agora já avistávamos o vale da Ribeira Brava bem como as cristas das montanhas que envolvem a Serra de Àgua, e a proximidade da Encumeada era o alento para o término desta primeira etapa.
       Ás 20h15 começavam a chegar alternadamente os caminheiros à Boca da Encumeada e enquanto alguns ainda andavam, outros aproveitavam as águas frias da Levada do Norte para arrefecer e estirar músculos e articulações, numa espécie de talassoterapia muito em voga nos dias que correm (luxos não ao alcance de todos!). Foi aqui que se confirmou a primeira baixa, brincar aos “cambadinhos” não é compatível com travessias integrais da ilha e as dores falaram mais alto.
       No Chão dos Louros, efectivou-se o repouso dos guerreiros e os problemas técnicos com o gás, não foram suficientes para impedir o cozinheiro de serviço e respectivo ajudante, de presentearem os esfomeados resistentes, com comida e bebida em quantidade e qualidade suficientes para que os ânimos não arrefecessem.

Sábado, 30 de Agosto de 2003

       Após uma noite de “descanso”, os participantes viram interrompido o seu sono, pelo frenesim de alguns elementos da organização que preparavam o pequeno-almoço. Para alguns bem reforçado visto aderirem ao menu da noite anterior sem grandes parcimónias, para outros bem mais convencional. Á mesa reinava a já habitual boa disposição e o tema dominante eram as pseudo vivências experimentadas, numa das antigas colónias portuguesas, por dois dos presentes.
       Juntou-se ao grupo mais dois elementos habitues nestas andanças e levantado o acampamento, de cara bem lavada e mochila aos ombros, era tempo de se fazer novamente ao caminho, pois se o primeiro dia tinha deixado marcas o segundo em nada se adivinhava mais fácil.
       O proposto era atravessar o maciço montanhoso central, passando pelos picos mais altos da ilha, por cotas compreendidas entre os 1007 metros da Encumeada e os 1862 do Pico Ruivo de Santana.        Um percurso muito exigente fisicamente que pôs à prova todos os que aceitaram o desafio. O tempo foi mais uma vez complacente com esta iniciativa e brindou-nos com a frescura de nuvens ocasionais que vinham ao nosso encontro arriba acima e galgavam os cumes montanhosos rumo ao norte da ilha.
       Subindo compassadamente a encosta, deixamos pelo caminho os picos do Meio (1281), Encumeada (1331), Ferreiro (1582) e Jorge (1697) sendo o cimo deste pico o ponto de viragem nesta escalada iniciando-se então a comprida e íngreme descida até à Boca das Torrinhas. Ali, onde se cruzam as veredas do Curral à Boaventura, com a vereda que liga a Encumeada ao Pico Ruivo, teve lugar a primeira paragem (12h10) para fastio do corpo. Neste local a vista sobre o Curral é soberba, e abismal é a palavra certa para descrever a diferença entre os dois cobertos vegetais das distintas vertentes da cordilheira, sendo o norte mais rico em espécies e densidade vegetal.
       Se subir exige muito do coração, descer desgasta os membros inferiores e neste troço de altos e baixos onde se tem de vencer um desnível próximo dos 900 metros, os caminheiros agradeciam a sombra que de quando em vez escondia a vereda dos raios solares, minorando o esforço exigido.
       A seu tempo e sem grandes pressas, passamos o pico Coelho e o pico da Lapa da Cadela, encetando a batalha contra o altaneiro Ruivo no final de aproximadamente 16 km de vereda.
       Ganha a batalha, foi com muito gosto que pelas 14h10 o grupo fundiu-se com a mescla de nacionalidades presentes no átrio da casa de abrigo do Pico Ruivo de Santana, envolta num reboliço poliglota que deixava no ar o burburinho semelhante ao dum centro cosmopolita.
       Estávamos a meio da travessia e inconscientemente nascia um novo alento entre as hostes, mediante a condição física que se ia inferindo a titulo pessoal. E não obstante o valor deste grupo, verificou-se mais uma desistência que seguiu rumo à Achada do Teixeira.
       Largamos do pico Ruivo pelas 14h30 e o objectivo era o terceiro pico mais alto da ilha. Pelo meio tínhamos ainda de superar a grandiosidade do pico das Torres, que do alto dos seus 1851 metros, via o sofrimento de alguns, contrastar com a “pujança” de outros que ainda tinham força para “competir” entre si.
       Aqui e ali os especialistas em flora regional que integravam o raid, apontavam o dedo a endemismos e seus consortes. Estupefactos com as espécies menos comuns noutras paragens, iam fazendo conjecturas sobre as mais variadas plantas no que respeita à sua nomenclatura e davam pequenas aulas de botânica a quem tivesse ainda com energia para os ouvir.
       Por fim, diante de nós elevava-se o pico do gato com 1780 metros de altitude. Este marcava o início da subida até ao Areeiro sendo facilmente atravessado por um túnel com aproximadamente 100 metros de comprimento.
       Com o Gato pelas costas subiu-se a escadaria do Cidrão e de forma comedida lá se atingiu o Areeiro por volta das 17h00. Foi tempo de esticar as pernas, repor calorias e despedir-se de mais um elemento, que desta feita abandonava o conjunto por imperativos de maior que nada tinham a ver com a sua capacidade física.
       Por entre gelados e beijinhos iniciamos a descida até aos Terreiros, onde iríamos pernoitar. Evitando ao máximo o alcatrão, servimo-nos da levada do Blandy e fomos atalhando aqui e além, até ao término da caminhada no parque de merendas dos Terreiros (19h20).
       Entusiasticamente recebidos pelo staff de apoio, foi tempo de procurar lenha, fazer o braseiro para a espetada e armar as tendas já de frontal na testa, como mandam as regras do bom caminheiro.
       O repasto foi novamente divinal e o céu estrelado remetia os estafados protagonistas deste relato para uma iluminada noite de descanso, ao som “harmonioso” de “sinfonias” nocturnas que não reuniam uma aprovação consensual.

Domingo, 31 de Agosto de 2003

       A manhã começou cedo, e se no dia anterior tinha sido a azáfama da organização a fazer despertar os caminhantes, desta feita, foram cidadãos madrugadores que com o tilintar dos tachos, as vozes de comando e o estacionar dos veículos, tiveram esse privilégio. E que bela forma de começar o dia!
       A manhã fazia-se sentir pelo frio e não tardou muito a se repetirem as cenas do dia anterior no que respeita ao manjar matinal.
       De trouxas arrumadas, partimos pelas 09h25 em direcção à Ponta de São Lourenço, avistada um pouco depois da saída dos Terreiros, dum cabeço sobranceiro à vereda que nos iria levar ao pico do Suna. Por instantes retivemos a marcha e contemplamos a paisagem, onde ao fundo, já se vislumbrava o objectivo final deste desafio. Houve mesmo quem dissesse que agora faltava pouco, não sei se para ganhar animo para a etapa final, se por erro de calculo. O certo é que o motor não foi a baixo e descendo lá fomos nós.
       Os pontos de referência foram se sucedendo e entre o pico do Suna (1028 metros) e a Divisão de Àguas da levada da Serra do Faial, separaram-nos apenas 25 minutos. Lamaceiros abaixo fomos desembocar na Portela pelas 11h10. Procedeu-se a mais uma pausa técnica para recuperação de calorias de forma fresquinha na tasca local e fornecimento de equipamento a um elemento que tinha feito esta etapa inicial mais desafogado.
       Era tempo de soltar amarras e partir em direcção às novas veredas da Serra das Funduras que se iniciavam 2 km depois da Portela.
       Este trilho escondido por entre um núcleo de laurisilva em franca recuperação e expansão, deliciou os sentidos dos caminhantes, confessamente surpreendidos com a beleza deste percurso. Composto por três troços bem sinalizados, esta rota levou-nos de volta à estrada florestal que no final tem uma ligação pedestre à Boca do Risco.
       Este carreiro (até à Boca do Risco), de piso escorregadio, íngreme e sinuoso, proporcionou-nos uma das paisagens mais majestosas desta travessia, facultada pela beleza grandiosa da escarpa de aproximadamente 450 metros, que vem desde o sítio do Larano na freguesia do Porto da Cruz.
       Sem episódios a reportar, descemos até à vereda que, bem trilhada e assiduamente frequentada, liga o Larano à Ribeira Seca e passados 30 minutos estávamos andando na berma da levada da Fonte Vermelha em direcção ao túnel do Caniçal.
       Os três quilómetros feitos ao longo desta levada, poucas aliciantes reúnem, face aos terrenos baldios envolventes, infestados com vegetação pobre e ao lixo, que devido à falta de sensibilização ambiental de quem por ali passa, vai-se acumulando neste canal que leva água até ao Caniçal.
       Junto à fonte que regou as gargantas sedentas dos resistentes caminhantes (à entrada do túnel do Caniçal), contiveram-se mais duas entusiastas, que face ao calor que se fazia sentir e antecipando o trajecto que se adivinhava, orientaram-se para as águas límpidas da praia do Ribeiro do Natal, deixando por mãos alheias a tarefa de concluir o raid.
       A estrada que vai até ao pico do Facho (323 metros) foi a via que nos conduziu até à entrada da velha vereda que ligava Machico ao Caniçal em tempos idos. A vista sobre a Ponta de São Lourenço e o casario do Caniçal é única deste local, mas o verde apenas persiste nos cactos que com alguns tabaibos maduros, desafiam os mais arrojados.
       Este terreno seco e gretado pela acção abrasadora do sol, remete-nos para outra dimensão e nem parece que estamos no mesmo território que tínhamos calcorreado pela manhã.
       Dum cabeço rochoso avistamos a praia onde relaxavam os nossos camaradas e pouco depois atravessávamos a ponte em arco de pedra que liga as duas margens do Ribeiro do Natal. Seguimos na direcção da vila e entre transposições de obstáculos, mais ou menos fáceis, esquecimentos que valeram retrocessos e reabastecidos de água pelas gentes locais, deixamos a civilização e pela estrada fomos até à Prainha.
       As pernas já doíam, os pés estavam massados, mas o que nos movia era mais forte que todas as dores que se iam sentindo. O espírito era uníssono, tudo menos morrer na praia!
       O miradouro na costa norte perto do Rádio Farol, foi um dos pontos de passagem finais. Uma fotografia para mais tarde recordar, um golo de água para o caminho e a pressão do relógio que estava quase chegando ás 18h00, fizeram-nos zarpar sem demoras, deixando o saborear do relevo e diversidade geomorfológica das falésias para uma futura visita a este local.
       A crista montanhosa orientada para a Ponta do Buraco, foi a trajectória adoptada e o terreno árido e rochoso levou-nos até ao final da estrada mais a este da ilha.
       Pelas 18h05 tínhamos atingido o nosso objectivo e a satisfação era evidente. Bravos tínhamos sido, resistentes quanto baste e já dispostos a repetir a façanha.
       Bem haja a todos quantos nos ajudaram a tornar esta iniciativa uma realidade.
       Para o ano há mais…

Bruno Berenguer, 8 Setembro de 2003