Reportagem

Aventura dos zero aos 1800

29 de Março, 2002: ainda não são 9 da manhã e um grupo de entusiastas aproxima-se da beira-mar, próximo da Casa da Luz, no Funchal. O objectivo é recolher uma amostra de água salgada, que será levada do zero hidrográfico até ao Pico do Areeiro, aos 1814 metros de altitude… a pé. O projecto foi designado "Aventura dos zero aos 1800" e precisou muito de pernas para andar!

Às costas carregaram-se as coisas essenciais para uma caminhada de dois dias - incluindo tendas - pois o objectivo era voltar ao local de partida, pelo próprio pé.
A caminhada teve um percurso citadino inicial, pela Rua da Rochinha, mas cedo se abandonaram as paisagens mais urbanas. Logo abaixo do Jardim Botânico apanhou-se a levada do Bom Sucesso, e por ali seguimos... sempre a subir. A partir da Estação dos Tornos, depois de atravessarmos o longo túnel das Babosas, a paisagem tornou-se realmente esplêndida. A ribeira abre gargantas profundas na montanha, dando lugar a diversas quedas de água. Lá atrás, no fundo, podíamos sempre rever o Funchal. Mas o nosso objectivo não estava ainda alcançado: depois de superarmos uma enorme escadaria em pedra arrancada à rocha (daquelas que dá orgulho a qualquer madeirense, como alguém disse), começámos a entrar na zona de alta montanha. Agora há apenas urzes e vegetação rasteira, e o nevoeiro e o vento fazem-se sentir, agrestes. É necessário um cuidado redobrado para que nenhum elemento se disperse, pois o nevoeiro é por vezes tão denso que se perde o contacto visual. Os últimos metros são tormentosos, pelo menos para alguns; as pernas já não respondem, afinal sempre foram 1814 metros de desnível a vencer, cumpridos em 8 horas a andar, mesmo com algumas paragens para alimentar o corpo esfomeado, e tirar as fotografias para mais tarde recordar…

Eram pouco mais das 17H00 quando todos os elementos do grupo se juntaram no marco geodésico do Pico do Areeiro, para a cerimónia de verter águas… do mar! Objectivo conseguido!

Estão apenas 7ºC, e todos desejamos recompôr-nos do esforço. Depois de tomar algo quente no café da Pousada do Pico do Areeiro, procurámos um sítio abrigado nas imediações para pernoitar. As duas tendas são montadas e o cansaço toma conta de cada um. Pouco passa da 9 da noite e já está completamente escuro. Alguém já dorme… sonoramente.

Noite atribulada… chove. A mãe-natureza parece não cooperar… a noite ilumina-se com alguma trovoada. De tenda para tenda ouvem-se uns "vocês por acaso não estão a ficar molhados?". Finalmente amanhece, um dia cinzento mas pelo menos parou de chover. Depois de um pequeno almoço aconchegante, arrumam-se as coisas e reabastecem-se os cantis com a água duma levada ali próximo.

O regresso é feito pelas serras de Santo António, no meio de algum nevoeiro e chuva, que se vão alternando para nosso desconforto. De vez em quando lá há alguma aberta… e lá em baixo já se vê o casario do Funchal, espalhado até ao mar. É preciso avançar com todo o cuidado pois o piso molhado está terrivelmente escorregadio. Os últimos quilómetros já são feitos por estrada, desde as zonas altas da cidade até à Avenida do Mar. Já passa das duas da tarde quando chegamos à praia junto aos Cais. Toda a água dos cantis é despejada bem juntinho ao mar…
Estamos todos cansadíssimos, mas já planeamos uma próxima caminhada, talvez até ao Pico Ruivo…

Cláudia Delgado, 16 Abril 2002