V RAID MADEIRA LÉS-A-LÉS

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2004

Pelo 5º ano consecutivo o Raid Madeira Lés-a-Lés cruzou a Ilha de Oeste para Este. Dezassete aventureiros partiram pouco passava das 07h30, do Funchal rumo à Ponta do Pargo.

Rapidamente chegamos ao ponto de partida e após uma breve introdução em grupo , passamos às fotografias da praxe. A malta estava animada e entre os elementos do grupo já se iam distinguindo os mais “tagarelas”, que mesmo enquanto caminhavam, nunca perdiam o folgo para encher o ar de vocábulos de maior ou menor propriedade.

Subimos tranquilamente a Ponta do Pargo, cruzando os poios, as ruelas, as escadas e as gentes, sobre um céu ameno que nos fez o favor de acompanhar até ao fim do Raid.

 

À saída o relógio marcava 10h00 e entre o café para despertar, a poeira dos altaneiros trilhos e os verdes e castanhos que nos envolviam, chegamos à Fonte do Bispo, onde estava prevista a primeira pausa alongada.

Repousados os corpos, repostas as almas, armas e bagagens partimos com o sentido posto no Rabaçal. O grupo continuava compacto, os pés começavam a reclamar ao de leve com pequenas “bolhas de água” a se fazerem sentir e no “Ponto” enquanto alguns subiam à edificação ali construída, outros libertavam-se do calçado e davam o alívio merecido ao seu principal meio de transporte durante estes dias.

Por entre o serpentear do alcatrão e das paisagens circundantes chegava-se ao Rabaçal e o grupo derivava novamente do alcatrão para o seu terreno de eleição (a terra), desta feita na berma de uma levada que nos conduziu até à descida para a levada das Rabaças .

Este troço seria motivo de descansos, alongamentos, muita paródia e uma vertiginosa descida para a levada das Rabaças , que nos “forçava” a cruzar um pequeno túnel com pouco mais de 50 metros, que servia de introdução para o que ai vinha… após o túnel um par de participantes encetam uma fuga digna das mais prestigiantes corridas de ciclismo porque compromissos extra Raid assim o exigiam…

Ainda assim o pelotão mantinha-se com uma boa moldura humana e o varandim que ladeava a levada das Rabaças não era por vezes suficiente para conter algumas fobias. Chegados ao inicio do primeiro e mais longo túnel que haveríamos de transpor, foi tempo de munir o grupo de lanternas e esperar para ver o pequeno ponto de luz ao fundo túnel crescer… diga-se em abono da verdade que de pequeno, este “furado” tinha pouco e as costas já reclamavam bastante quando por fim a luz voltou a fustigar os fotofóbicos olhos… foram mais ou menos 45 minutos de escuridão ziguezagueada pelos focos de lanternas com maiores ou menores voltagens. Tais tormentas voltariam a se repetir pouco depois num “furado” mais acessível, pois eram apenas duzentos, os metros que teríamos de percorrer nas entranhas da terra.

Passados os “furados”, apontamos as baterias para a mais que desejada Boca da Encumeada . Lá chegamos pouco passava das 19h30 e foi tempo de cafezinhos, petiscos, alongamentos e até lipotimias (quebras de tensão bruscas) que nos foram “entretendo” até à chegada do transfere para o local do repasto e acampamento – Chão dos Louros.

As tendas haviam de requerer um último esforço, não só físico como mental (porque há tendas mais convencionais que outras!), que aumentaria ainda mais o deleite com a bem confeccionada ementa que nos esperava. Foi então o tempo da Sopa de Legumes (repetida vezes sem conta) e do Frango no Churrasco que a esta distância ainda conseguem despertar condicionadas salivações. Era tempo de confraternização e satisfação de algumas necessidades básicas!

 
Sábado, 25 de Setembro de 2004

São 07h00 e alguns decibéis entram aturdidamente pelo canal auditivo dos repousados caminheiros, após uma “confortável” noite de repouso sobre o relvado do Chão dos Louros (era o despertador). Outros sons haviam sido presenteados noite fora, mas de outras sinfonias se tratavam e as cavidades de ressonância eram outras…

O pequeno-almoço estava sendo preparado. Era tempo de alvorada e de novos trabalhos com o desmontar dos abrigos nocturnos. Entre estas lides, havia já quem necessitasse de cuidados aos pés. Mau preludio para quem estava no início do segundo dia de caminhada. Assim constatava-se um evidente facto, o calçado deve ser confortável (e para isso deve ter sido usado anteriormente), leve e arejado, pois se tal não se verificar incorre-se no risco de interromper o desafio.

São desaires que naturalmente podem ocorrer, mas que não impedem que os eventos prossigam, até porque mais caminheiros se juntaram ao grupo e as interrupções acabaram por não ser definitivas na sua grande maioria.

O dia adivinhava-se longo no esforço. Partindo da Encumeada (1007 metros) teríamos de superar um desnível acumulado muito superior aos 1000 metros, pois a chegada ao Pico Ruivo de Santana seria intercalada por um constante sobe e desce.

O grupo manteve-se compacto e as paragens de 30 em trinta minutos garantiam a hidratação e os estiramentos musculares necessários à manutenção da boa condição física que era factor preponderante para o sucesso desta etapa..

Tudo foi decorrendo dentro da normalidade e as vistas eram deslumbrantes. Facilmente se descortinava o contraste entre o coberto vegetal da vertente norte com o mesmo coberto na vertente sul. Os vales da Serra de Água, São Vicente, Curral da Freiras e Boaventura, foram o alvo preferencial das objectivas que aqui e ali captavam para a posteridade os belos e imponentes recortes do maciço montanhoso central da ilha.

Já passada a Boca das Torrinhas (local onde se encontram as veredas que ligam o Curral à Boaventura e a Encumeada ao Pico Ruivo de Santana), cruzamo-nos com um casal de Austríacos que estava sentado numa das curvas do trilho de ascensão ao Pico Ruivo de Santana, a cerca de 200 metros de desnível e com cerca de 1 km de caminho para lá chegar. Interpelamo-los e inteiramo-nos da situação.

A senhora do casal, já com alguma idade sobre as pernas mas aparentando ser uma habitue nestas coisas das caminhadas, tinha pisado um vespeiro e os insectos reagiram instintivamente. A mulher vinha agora a sentir alguma dificuldade respiratória e já por duas vezes havia perdido os sentidos.

Automaticamente predispusemo-nos a ajudar, alertando imediatamente a Protecção Civil para a ocorrência e acompanhando a acidentada até à casa de Abrigo do Pico Ruivo de Santana.. se bem que é verdade que o gesto custou-nos alguns minutos, também não é menos verdade que o socorro de pessoas em risco é uma obrigatoriedade e as prioridades devem ser sempre estabelecidas em função de princípios básicos de vida.

E assim chegou a comitiva ao largo da Casa de Abrigo, integrando elementos internacionais. Os cantis foram recarregados, o corpo saciado dentro da medida do possível e o descanso prolongou-se até à chegada dos Bombeiros de Santana que prontamente compareceram mas sem grandes possibilidades de actuação. Felizmente esta turista havia recuperado e pôde acompanhar pelo seu próprio pé os elementos desta corporação que a conduziram até ao Centro de Saúde de Santana.

Histórias à parte e consumadas as despedidas com uma fotografia, fomos em direcção ao Pico do Areeiro, já passavam das 15h00 e a ritmo compassado fizemos o trajecto em pouco mais que 01h45 min , sendo ultrapassada a escadaria do Cidrão (Pico que antecede o Pico do Areeiro) em aproximadamente 20 min . O tempo mantinha-se ameno, os imponentes penhascos que cruzamos pelo caminho tinham enchido os olhos até aos menos crentes e o Pico do Areeiro marcava mais um ponto de descanso para os pés mais massacrados. Entre locais com melhores ou piores vestimentas e tímidos piropos, lá se levantou novamente a “malta”, pois ainda haviam alguns quilómetros para calcorrear até aos Terreiros onde nos esperava o segundo local de descanso.


Acampamento nos Terreiros

O cansaço extenuava os expressivos rostos e o alcatrão era o recurso óbvio num ou outro ponto do percurso. Chegados à levada do Blandy a “ Uveira da Serra” passou a adocicar os paladares mais familiarizados com os bagos pendentes deste arbusto montanheiro e até aos terreiros, “rolava a bola” entre os protagonistas dessa arte que é entreter.

Esperavam-nos… as tendas , ainda húmidas da noite anterior e já dispostas no terreno à espera das mãos cansadas de quem já havia cumprido dois terços do percurso. Mas antes havia que estirar músculos porque o desafio ainda estava longe da sua conclusão, ninguém queria ficar pelo caminho e não podíamos arrefecer muito porque as tendas estavam no chão.

A lenha já estalava no fogareiro, quando as tendas ganharam a altura necessária à habitabilidade e pouco depois era ver o “povo” deliciar-se com a “fresquinha” água que brotava das “nascentes” implantadas nos Terreiros, para libertar parcialmente o corpo de odores e humores menos abonatórios.

Depois dos “banhos” os pratos, e a já famosa sopa do cozinheiro de serviço que não deixou os seus créditos por mãos alheias, e voltaram a saciar os mais refinados gostos. Depois da sopa a espetada, o relato e a risota, levando ao rubro a noite fria que se começava a fazer sentir.

O cansaço conduzia à “cama” e os volumosos vocábulos proferidos na anterior noite, desta feita não se fizeram sentir por parte da comitiva pedestrianistas , embora fossem marcar presença outras fonéticas vocalizadas por outras presenças no mesmo espaço, cujo civismo deixava muito a desejar… e por falar em civismo, deixa-se aqui uma palavra de apreço a todos quantos fazem da serra um local de vazadouro aleatório, enaltecendo-os pela arte de bem dispersar lixo por tudo quanto é sitio... sem comentários!!

 

Domingo, 26 de Setembro de 2004

E foi-se a noite, veio a alvorada. Mais caminheiros juntaram-se a nós para fazer a ponta final deste trajecto: Terreiros – Baia d'Abra e logo após o pequeno-almoço arrumaram-se as tralhas e puseram-se os pés a caminho. Seriam 09h30 quando deixamos os Terreiros e começou-se a avistar ao longe o tão almejado fim de estrada que marcaria o fim desta caminhada.

Descemos o cabeço, tiraram-se fotos e caminhou-se até ao Pico do Suna . Mais uma paragem antes da descida escorregadia para os Lamaceiros, onde está edificado um Posto Florestal que alberga os homens que zelam pela manutenção daquele que porventura será o nosso bem mais preciso – a Floresta Laurissilva .

Fomos descendo e descendo, as pernas e joelhos já se faziam doloridos e entre as visitas sobre a Penha d'Águia e a levada que atalha para a Portela, lá chegamos mais ou menos compactos, mais ou menos sofridos.

Era um dos vários pontos de desistência e mais uma vez houve quem fosse forçado a ouvir o bom senso. Agora caminhávamos na direcção das Funduras e das recentes veredas que dão a conhecer o florescente Núcleo de Laurissilva que se mantém firme nas altaneiras serras que delimitam o vale de Machico . O trilho está em bom estado e a floresta envolvente vai deslumbrando pelo fresco verde, os fetos e a folhagem que atapeta o chão que se vai pisando.


Serra das Funduras

As pernas doem, os pés magoam, começamos a sentir músculos que durante a maior parte do ano nem sabemos que possuímos, mas a vontade de chegar ao fim é mais forte e a partir daqui pouco nos há-de demover. Chegamos ao fim da estrada de terra das Funduras e a passagem até à Boca do Risco é literalmente vertiginosa

Descendo por um trilho pouco frequentado tem-se acesso a uma majestosa vista sobre a falésia do Larano . Ver as arbóreas moldadas pelo vento subindo em direcção ao cume desta passagem, com o azul do mar nortenho como pano de fundo é verdadeiramente inspirador. Devagarinho todos transpõem mais este obstáculo (com ou sem ajuda de cordas) e pomo-nos a caminho da Levada da Fonte Vermelha que interceptaríamos no fundo do Vale da Ribeira Seca.


Mais perto estava o objectivo e o contraste com as serras altas era evidente, não só pelo pinheiral queimado durante o verão que agora acinzentava o nosso percurso, mas também porque a proximidade das casas trazia o já conhecido civismo de que falávamos há pouco.


Funduras - Risco

Foram perto de 45 min de levada que não deixam muitas saudades, não só pelo facto do cansaço aturdir a paisagem, mas também porque facilmente se percepcionou a razão subjacente à grande mata ardida por estas bandas durante a época estival – as queimadas agrícolas .

Enfim, eis nos na boca do túnel que ainda é a principal e única passagem automóvel para o Caniçal. Falta-nos a água esperada e há quem já não consiga vencer mais o bom senso. Agora o ritmo a impor seria outro e transposto o Pico do Facho, faríamos uso do antigo caminho para o Caniçal galgando os vales e cabeços que nos separavam do Ribeiro do Natal. Sem paragens ou peripécias por entre as áridas terras deste cortado, a meta vislumbrava-se cada vez mais perto e a “ promenade ” do Caniçal seria a plataforma de entrada nesta vila piscatória que agora também alberga a principal Zona Industrial da Madeira.

 


Ponte sobre a Ribeira do Natal

Passamos o Caniçal mesclando-nos com as gentes que em grande fluxo circulavam pelas principais artérias desta localidade e sempre no alcatrão fomos até ao miradouro vizinho ao Rádio Farol. Muitos deambulavam de forma pouco convencional, mas havia quem ainda tivesse força para arrastar 3 ou 4 estrada acima, indo contra todas as regras do bom senso, o que é compreensível quando se tem muitos quilómetros nas pernas.

Tiramos as últimas fotos e rumamos para o fim do objectivo delineado. A elevação rochosa que nos conduzia até ao largo asfaltado da Baia d'Abra , tinha o seu quê de escorregadia e ponha à prova a atenção dos resistentes. Mas ninguém caiu, ninguém fraquejou e nove caminheiros cumpriram na íntegra o proposto.

 

A todos os que se juntaram a nós nestes três dias de caminhada Lés-a-Lés, o nosso muito obrigado. Aos que não atingiram os objectivos a que se haviam proposto, para o ano temos o VI Raid Madeira Lés a Lés…


Os aventureiros

 


Os resistentes

 

Saudações Montanheiras